A Belarus
On 19/08/2020 by Mario LoboNotas para a esquerda séria portuguesa
A extrema direita na Belarus representa na pior das hipóteses possível (em termos de identificação e não de militância) 2% da população. O nacionalismo bielorrusso é fabricação da RFE para consumo ocidental e não tem representatividade alguma no interior do país.
A título de exemplo, não conheci nunca nenhum bielorrusso, e conheço algumas centenas deles, que fosse, por exemplo, intransigente na língua. A situação linguística é até bastante semelhante à do Luxemburgo, se bem que mais suave. No Luxemburgo metade (grosso modo) da população fala Luxemburguês. Na Belarus essa percentagem é bem menor. E se no Luxemburgo há algum orgulho pátrio no uso da língua (que é usada diariamente), no caso da república da Europa central o uso da língua “nacional” como língua principal está limitada a um punhado de radicalizados e às aldeias de algumas regiões no norte e oeste.
Não há na população Belarus, ao contrário duma parte (se bem que também não tão significativa) da ucraniana, desejo algum de uma adesão à UE. Há alguma elite urbana que pede essencialmente facilidade e celeridade na aquisição de vistos.
Na Belarus não se perseguem judeus. Mas apanham-se na rua pessoas que estão na bicha para o café. Há dezenas de vídeos de polícia a sair das carrinhas e a apanhar o primeiro que vem à mão, muitas vezes simples transeuntes. Há centenas de fotos de pessoas completamente marcada por bastonadas. Dir-me-ão que foram protestar de forma violenta e que a resposta foi adequada. Dir-vos-ei então que a televisão nacional passou, no total, 15 minutos de imagens em que se vê agressividade da parte dos manifestantes, antes de começar a repetir.
Há uma parte da esquerda, uma parte que eu gosto muito, que por vezes (felizmente poucas) peca por associação.
A Belarus, sim tem um sistema público de ensino e de saúde. Nas universidades públicas a forma mais eficaz de se seguir o curso que se quer é pagar a propina. A quem paga todos os cursos são acessíveis – para os outros é por concurso e para as vagas sobejantes. Há uma saúde para todos. Mas os que pagam têm clínicas privadas e acesso privilegiado.
Há um sector productivo forte nas mãos do estado. Empresas que, na sua grande maioria, se abastecem de matérias primas e escoam produto final através de empresas paralelas detidas pelos administradores dessa máquina pública.
A Belarus não é já uma república socialista. A Estónia tem tanta mão na saúde e educação como tem Minsk e não se lhes chama socialistas.
E não é uma república socialista porque não tem mecanismo de representação algum. Os dirigentes e delegados sindicais, os executivos locais e regionais, os directores de escolas e hospitais, toda a máquina administrativa do estado é nomeada por cima. A participação do povo no processo de decisão, seja de acordo com que modelo for, é nula.
Não há um partido que acompanhe a estrutura vertical de poder. Os candidatos nas eleições locais, regionais, e nacionais são todos independentes – como raio é possível fazer política séria sem partidos, isso é no EUA e Inglaterra, esses bastiões da “democracia”.
Conhecendo o processo que levou ao surgimento da Svetlana Tikhanovskaya (sobre a qual, diga-se, eu tenho sérias dúvidas que seja líder seja lá do que for) é fácil perceber que o que o povo quer não é o abandono dos restos do regime socialista que, reforce-se, o Lukashenko só preservou para manter o povo sereno. Antes pelo contrário. O que eles querem é que esse remanescente seja acessível a todos sem arbitrariedades, sem manipulações, sem cidadãos de primeira e de segunda.
O maior risco para a Belarus neste momento é precisamente a continuação dum regime que, à moda da Venezuela (com o muito bem que fez), não soube nunca descolar da indústria extractiva. O saldo positivo e margem de manobra da Belarus vem exclusivamente do petróleo que a Rússia lhe vende mais barato permitindo com a transformação em combustíveis e óleos (representa 25% das exportações).
Se se quer defender a Belarus, defendam-se os trabalhadores e os direitos sociais. Não o Lukashenko. Tal como na Venezuela não se defende o Maduro mas se reconhece que há conquistas das quais não se pode abdicar.
Não se pode é defender quem tão brutalmente oprime o seu povo com medo do futuro. O povo Belarusso soube várias vezes dar resposta a dificuldades incomensuravelmente maiores, e saberá de novo fazê-lo.
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